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terça-feira, 14 de agosto de 2007

Antes do Pôr-do-Sol

A continuação de Antes do Amanhecer, forneceu um retrato das dúvidas, esperanças, sonhos e inquietações da chamada geração X, expostas através da singular relação de Jesse (Ethan Hawke) e Céline (Julie Delpy), que se conhecem em Viena e passam um dia juntos. A dupla combina encontrar-se meses mais tarde, não colocando de parte a hipótese de dar continuidade à curiosa história de amor da qual foi protagonista, ainda que por pouco tempo.
O reencontro dá-se agora, nove anos depois, onde o duo já não se encontra a viver os últimos dias da adolescência mas a contrastar as ilusões, projectos e expectativas de então com a insípida realidade quotidiana da idade adulta. Antes do Anoitecer é, então, a apresentação do reencontro do par, desta vez em Paris. Jesse é agora um escritor que promove a sua nova obra na capital francesa e Céline aproveita a ocasião para o rever. O filme é ainda mais minimalista do que o seu antecessor, centrando-se apenas nos diálogos dos protagonistas e seguindo o seu percurso de hora e meia em tempo real, desde os tons formais e algo desconfortáveis do reencontro até ao mergulho no espectro emocional dos dois ex-amantes.
Antes do Anoitecer, não tão reluzente e esperançoso como a obra que o antecedeu, abre espaço para o cinismo e a desilusão, expondo as metas que ficaram por atingir e as previsões que não chegaram a concretizar-se. Quando o par se conheceu, as atmosferas eram marcadas pela ilusão e entusiasmo, mas o novo contacto ocorre num contexto de alguma frustração e amargura (o preço da maturidade?). Apesar de melancólico e nostálgico, Antes do Anoitecer continua a ser um filme de Richard Linklater e, por isso, o idealismo ainda consegue superar os ambientes de cinismo desencantado. Há espaço para o amor, portanto, mesmo se as cedências e obrigações da vida adulta parecem indicar o contrário.
Credível e realista, o filme flui naturalmente, oferecendo um intrigante olhar sobre as relações humanas através de excelentes diálogos e das muito convincentes interpretações de Hawke e Delpy. Projecto feito "por amor à camisola", Antes do Anoitecer evidencia a entrega e dedicação da equipa que o gerou, tornando-se num dos mais simples e belos dramas de 2004.
A película assinala também o regresso do melhor Linklater, apostando na espontaneidade e sobriedade em detrimento da formatação de registos indistintos (o mediático e pouco surpreendente Escola de Rock chegou a colocar algumas dúvidas quanto à criatividade do cineasta). Manifesta-se, então, o regresso aos momentos inspirados da obra do realizador, como Slacker (um retrato indie da juventude, que lhe deu reconhecimento no início dos anos 90) ou SubUrbia (outra perspectiva sobre a teen angst, apostando num modelo narrativo original: focar as experiências de um grupo de jovens durante uma noite).
Esta atípica sequela/continuação possui, então, aspectos suficientemente singulares para se destacar como uma das pérolas do cinema independente norte-americano de 2004, congregando doses certas de leveza e de elementos despoletadores de reflexão...

Antes do Amanhecer

Antes do Amanhecer é um daqueles filmes simples, cujo argumento acontece todos os dias em algum lugar do planeta: um estranho conhece uma estranha numa viagem de comboio, eles conversam um pouco, falam um bocado e quando o comboio pára na estação em que um deles tem de sair, acabam por desembarcar os dois maravilhados um com o outro. Trocam mais meia dúzia de piadas, avançam com perguntas e quando dão por eles estão-se a beijar num lugar romântico da cidade, apaixonados como nunca estiveram, e com um enigma que assombra os seus momentos de lucidez: "e depois disto? o que nos vai acontecer quando o avião e o comboio partirem? o que vai ser de nós?!"
A história pode ser a mesma do costume, mas o filme não é. Antes do Amanhecer tem qualidade pela simplicidade de como os dois protagonistas (o americano Jesse e a francesa Celine) se apaixonam, e acima de tudo pelo facto do filme não cair no melodrama que estes filmes românticos costumam cair, e que tanto os caracteriza.
Antes do Amanhecer também encontra pontos a seu favor nos diálogos mantidos entre os protagonistas ao longo do filme. Embora o que esteja ali a ser debatido como pano de fundo seja o amor, os temas abordados por Jesse e Celine variam entre morte, infância, rivalidade entre homens e mulheres, filosofia, entre outros. O amor entre ambos quase que não é debatido, porque é magistralmente demonstrado nos gestos, atitudes e troca de olhares, e porque é um sentimento que apesar de estar a dar-lhes felicidade naquele momento, eles sabem que aquele conto de fadas de um dia não vai ter o tradicional "foram felizes para sempre". Há uma viagem à espera de cada um deles. Há um oceano que os separará. E há um futuro que não é a dois.
O filme funciona ainda como uma visita guiada pela cidade bela e cinematográfica de Viena. Os protagonistas visitam variados locais turísticos da capital à medida que se conhecem, e em cada lugar a sua relação é intensificada.
É curioso ainda o segmento de cenas no final do filme, em que se vêem vazios os locais onde Jesse e Celine construíram o seu amor pouco a pouco. A ausência deles (re)lembra a importância que 24 horas têm. Num dia podemos conhecer a nossa alma gémea, ama-la, e perde-la involuntariamente.
A nível de representação Julie Deply está impar no papel de Celine, e de certa forma eclipsa a interpretação de Ethan Hawke. É como se a personagem Jesse não tivesse "pedalada" suficiente para a energia de Celine. Embora Ethan esteja bem em Antes do Amanhecer, em algumas cenas parece apenas ser o par de Julie, e não um dos protagonistas...
É um dos meus favoritos... amanhã ou depois contiuo.